Doutor
(Isto é um conto... é grande... 6 páginas em A4... ainda dá tempo de fechar o browser!)
Dr. Paulo Roberto estava sentado em sua cadeira esperando pelo próximo cliente. Mantinha sua cara apática. Era frio demais para ser um pediatra. A maçaneta da porta se mexe e a medida que a porta é aberta Dr. Paulo (era assim que gostava de ser chamado) vai mostrando sua fileira alinhada de dentes amarelos. Passava o dia inteiro atendendo crianças na clínica, quando saia fumava como “uma puta presa”.
Sua secretária aparece quando a porta já está meio aberta com um envelope pardo à mão. O sorriso desaparece como se murchasse. D. Clarisse, que era nova e bonita demais para ser chamada de dona, coloca o envelope na mesa de Dr. Paulo. Já era quinta-feira. Certamente estaria ocupado no sábado como sempre esteve nos últimos... quantos anos?
Abre o envelope e dá uma examinada no conteúdo. Fica curioso quanto a um sobrenome: Solera Andrada. Já ouvira antes este nome. Guarda o envelope na gaveta da mesa e pede para a secretária mandar entrar o próximo paciente. Examina alguns papéis sobre a mesa e quando a maçaneta se move infla os dentes mais uma vez olhando em direção à porta.
****
Dr. Paulo foi para Brasília logo após que Luísa morreu. Como toda cidade em formação, Brasília atraia dois tipos de pessoas: idiotas e vigaristas. Os primeiros vêm acreditando na esperança de que uma nova cidade seja melhor do que as já existentes. Os segundos vêm por conta dos primeiros.
O jovem Dr. Paulo não pertencia a nenhum dos dois tipos. Era um jovem pediatra que perdeu a esposa durante o parto de seu primeiro filho (que também morreu durante o processo). São Paulo lhe era acolhedora demais. Resolveu ir para Brasília e saciar todo o rancor misantrópico que se apossou de seu peito. Não poderia ter escolhido lugar melhor...
Talvez tenha sido o primeiro homem a se adaptar à frieza dos blocos residenciais, à surrealidade dos trajetos (era maravilhoso para ele que quase todo caminho era feito andando-se reto por uma quase-eternidade e então dando voltas, quase não se faz curvas em Brasília) e à setorização da cidade. As pessoas não lhe importavam. Para ele, Brasília era uma cidade recheada por serventes nortistas feios, novos-ricos mineiros cafonas e funcionários públicos cariocas folgados. Mas essas pessoas tinham filhos, esses filhos ficavam doentes e era isso que colocaria comida na sua mesa.
Trabalhava em uma clínica infantil na Asa Sul. Quando não estava no trabalho estava em algum cinema, ou no clube de tiro. Aprendeu a atirar no exército e tomou gosto pela coisa. Quando se casou vendeu o Taurus .38 que tinha, temia por algum acidente com a arma. Meses depois que se mudou para Brasília resolveu que voltaria a brincar em um stand de tiro. Comprou outro brinquedo igual ao que tinha.
Um dia, alguns anos depois de ter mudado para Brasília, à noite em casa o telefone tocou. Era sua antiga secretária falando de um militar que estava dando um estardalhaço na clínica por conta do filho. O oficial queria porque queria que o filho fosse atendido pelo Dr. Paulo Roberto. A secretária lhe dissera que o médico não atendia emergências. O militar se exaltou e começou o chilique.
Dr. Paulo disse que estaria lá o mais rápido possível. Vestiu sua roupa branca e foi até a clínica. Chegando inflou os dentes em um sorriso reto e alinhado. O homem, que estava às turras com a secretária, veio até o Dr.Paulo com uma expressão que o jovem doutor pensou que o atarracado oficial em um terno verde-oliva fosse cair aos seus pés e suplicar.
“O senhor é o Dr. Paulo Roberto Palhares? Por favor, me ajuda. Meu filho. Ele tava mexendo nas minhas coisas... em uma gaveta do escritório que tenho em casa... o menino achou uma caixa de balas de revolver... engoliu! Pelo amor de Deus, Dr. Paulo!” – o homem se despiu de toda sua pompa e lhe pedia quase de joelhos para fazer o seu trabalho.
Dr. Paulo se conteve para não rir. Lembrou-se de uma crônica de Stanislaw Ponte Preta. Acalmou o homem e foi examinar o garoto. Por mais catastrófico que fosse era um caso de profilaxia muito fácil. Foi passando o estetoscópio pelo abdômen do menino com um sorriso. Era um dos seus sorrisos sintéticos, mas esse tinha uma linha de sinceridade. “Não aconselho aponta-lo para alguém.”.
Depois de passar as recomendações para o pai do garoto o militar o cumprimentou efusivamente.
“Muito obrigado, Dr. Paulo. O senhor me foi recomendado pelo Major Padone. Ele disse que vocês são amigos de longa da data, que entraram juntos no exército. Falou que era excelente pediatra e que me atenderia com uma enorme cortesia. Não podia estar mais certo o major. Toma aqui... ele me pediu para lhe entregar o telefone novo dele e pediu para que o senhor ligasse!” – o homem continuou se derretendo em agradecimentos ao médico enquanto este tinha na cabeça um turbilhão de perguntas.
***
Sábado. Dr. Paulo vai ao tênis. Trocou o tiro pelo tênis. O cabelo grisalho bem cortado e o rosto vincado parecia ter sido colado em um corpo alto e em completa forma. Dr. Paulo aqui se torna simplesmente Paulo, mas isso não significa que ele tenha sua turma de amigos no tênis. Geralmente é sozinho e conversa quase apenas com o garoto que fica na quadra. É simpático com aqueles com quem joga, mas geralmente mantém uma distância segura.
Quando termina sua última partida do dia vai para o lobby que dá vista para a quadra. Ainda suado, pega da mochila o maço de Marlboro e pede para que o garçom lhe traga uma água de coco em um copo e um Ballantine’s. Adora fazer isso, sente-se como um herege que escreve blasfêmias no banco de uma igreja enquanto finge assistir a missa. Adora ainda mais fazer isso quando tem algum colega da clínica por perto, mas este não era o caso.
Fumando enquanto olha o Lago Paranoá e as casas do Lago Sul ao horizonte, percebe um grupo de garotas sentadas em uma mesa a uma certa distância da sua. Elas conversam entre si enquanto dão rápidas olhadas para ele. As olhadas se tornam mais indiscretas e os comentários um pouco mais exaltados. Paulo finge que não as vê. Quando a ebulição se torna mais notável resolve olhar na direção delas como que mostrando que sabe do que estão falando. As garotas se calam e ficam contidas, parecendo segurar uma gargalhada. Uma menina então se levanta e vai até a sua mesa.
“Com licença!” – a garota fala com um misto de timidez e graça. Paulo assenta com a cabeça e lança um dos seus sorrisos. – “Desculpe-nos, mas é que eu e minhas amigas estávamos nos perguntando quantos anos o senhor tem. Vimos o senhor jogar com o pai da Laurita e ele tem 45. Então a gente resolveu pegar uma aposta. Quem chegasse mais próxima à sua idade ganhava um almoço das outras. Quantos anos o senhor tem?”
A menina dá um sorriso maroto. Paulo dá um sorriso de verdade. Seus dentes se entreabrem e por entre eles sai uma gargalhada discreta.
“Aonde o almoço?” – pergunta sorrindo Paulo.
“No Mc’Donalds!” – a menina responde sorrindo ainda, agora meio sem jeito.
Paulo conta as garotas. São cinco incluindo a que foi falar com ele. Coloca a mão no bolso, tira a carteira, bota uma nota de cinqüenta na mesa e a arrasta em direção à garota.
“Isso dá para cada uma ganhar a aposta!” – Paulo volta a olhar o lago com um certo ar sublime, porém austero. A menina vai rindo até as amigas. Elas não acreditam e ficam alvoroçadas. Paulo se perde na vista e só sai do transe quando as cinco passam em fila ao seu lado olhando-o desde a mesa onde estavam sentadas.
“’brigada, tio! Tchau!” – uma por uma falam a mesma frase tocando-lhe o braço.
***
Dr. Paulo ligou para o telefone que o homem havia o dado. De fato, conheceu um Padone no exército e haviam sido amigos. No entanto, havia anos que não via Bernardo. Depois que saiu do exercito foi para a faculdade de medicina. O amigo seguiu carreira.
Encontraram-se poucas vezes desde então. Como ele poderia saber que Dr. Paulo morava em Brasília. A cidade ainda era pequena, provavelmente tenha visto o nome de Dr. Paulo na lista de médicos do convênio do exército. Ligou para o antigo amigo, que lhe atendeu de maneira festiva e marcou para se encontrarem no bar de um hotel.
Quando chegou ao encontro Padone estava sentado em uma mesa no canto, levantou-se e abriu os braços para um abraço. Dr. Paulo abraçou-lhe. Sentaram-se e começaram a conversar.
“E aí? Como anda?” – perguntou Padone
“Bem! E você?” – Paulo respondeu prontamente e de maneira simpática. Conversava naturalmente como não o fazia há anos. Talvez por ser essa a primeira vez que encontra alguém que fora seu amigo antes de mudar para Brasília.
“Bem! Bem! E a Laura?” – Padone perguntou com o mesmo sorriso.
“A Laura morreu... antes de eu mudar para cá!” – Paulo que exibia uma sombra de entusiasmo murchou-se e deu um gole no copo de whisky que o amigo havia pedido para ele. Padone também tomou do seu whisky.
“Poderia ser pior! Ela poderia ter vindo para cá. Aí ela ficaria louca... como qualquer pessoa normal!” – Padone tentou dissipar o desânimo do amigo com uma gargalhada sem graça. Paulo entendeu o amigo e riu também. Começaram a conversar relembrando o exército, traçando os caminhos que cada um fez e falando o quanto aquela cidade onde viviam era estranha. Em um certo ponto da conversa Padone tomou o resto do whisky do copo em um gole como quem se prepara para falar algo importante.
“Te perguntar, Paulo... você ainda atira como atirava no exército?”
***
Paulo está em casa. Já é de noite. Está vendo “A Dama de Shangai” na sala de TV olhando eventualmente para o relógio de maneira calma. Quando o filme acaba dá mais uma olhada no relógio e pensa em ver outro filme. Constata que não daria tempo e vai para o banho.
Sai do banho e vai para o quarto. Em cima da cama tudo arrumado: terno e calças pretas, uma camisa branca, uma gravata preta, meias pretas, sapatos pretos e um coldre com uma 9 mm automática com silenciador. Veste-se calmamente, vai ao banheiro para se pentear e escovar os dentes. Pega o envelope e dá uma revisada rápida. Parte para a garagem no subsolo do bloco, entra no carro e sai.
Vai para uma quadra residencial e começa a traçar uma estratégia para se aproximar do alvo. Observa o bloco a sua frente, posicionado no meio da quadra no sentido transversal aos outros blocos. As luzes estão todas apagadas. Dá mais algumas olhadas no conteúdo do envelope, sempre olhando a saída do bloco. O bloco não tem guarita e aparentemente não tem vigia. O carro do alvo está na garagem externa do bloco. Resolve sair e esperar entre as árvores mal iluminadas do lado oposto ao bloco, não muito longe do carro.
Um homem de cabelos castanhos e óculos sai do bloco. Aparenta ter entre 30 e 40 anos. A descrição coincide em cheio à do envelope, mas mesmo assim Paulo puxa do bolso a pequena foto que acompanhava o relatório. O homem está andando procurando a chave do carro entre o molho que carregava. Paulo vai atrás e quando o homem coloca a chave na porta do carro percebe a presença de Paulo.
“Silêncio, entra no carro! Fica frio!” - Paulo com a arma já apontada para o homem diz de maneira pausada e calma, como se estivesse fazendo de tudo para ser compreendido. O homem é tomado por um susto ao ver um homem pouco maior que ele, de aparência distinta e cabelos grisalhos lhe apontando uma arma. Paulo abre a porta de trás do carro e entra.
“Dirija! Siga minhas instruções e tudo será mais fácil!” – Paulo fala com o mesmo tom de voz de quando tem que aplicar uma injeção em seus pacientes. – “Vamos sair daqui!”
O homem dirige enquanto olha Paulo pelo retrovisor. Paulo olha-o direto nos olhos. Seus olhos cinzas parecem brilhar no escuro do banco traseiro. Paulo vai dando instruções para Paulo até chegarem ao estacionamento deserto de uma faculdade. Ordena que pare e acende um cigarro.
“Guilherme Solera Andrada, certo?” – Paulo pergunta de maneira trivial, com um toque simpático até.
“Sim!” – o homem responde prontamente como quem está sendo interrogado.
“Seu pai era milico, né?” – Paulo aumenta o tom simpático com um toque de irreverência discreta na voz.
“É!” – o homem responde meio confuso, meio surpreso.
“Quando o senhor tinha uns 6 anos o senhor mexeu nas coisas no escritório do seu pai. Encontrou uma caixa de balas e engoliu uma não?” – Paulo perguntou ainda irreverente e de maneira curiosa.
“Sim! Eu me lembro...” – o homem respondeu rindo confusamente. Parecia achar aquilo bizarro: meio atemorizante, meio engraçado. Sua fala foi silenciada por um tiro na nuca. Caiu em cima do volante de olhos fechados. O teto do carro estava todo sujo de sangue. Paulo deu uma revista em suas roupas para ver se estava sujo. Tudo limpo. Mesmo assim deu tapas no ombro como se estivesse tirando uma sujeira logo depois de colocar a arma no coldre. Saiu do carro e foi andando até onde havia deixado o seu carro.
domingo, outubro 02, 2005
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